quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Inntruso no Mundo


Aos amigos Adherrio-Lais

& Ricardo Carpim

 



Inntruso no Mundo

todo o mundo

 

por um segundo

 

Quiçá o afeto

esse ar fe(i)to

um aborto

prematuro natimorto

 

O som do berro

desespero

não há mais tudo

morando no erro

 

Extudo

não quero

Já são todos gritando de horror

 

Haverá som às sombras

Haverá sobras

Há! Verás sobras

 

E se pá

emancipá

Nem tchum

 

Aresta

Não resta

Há Porta?

A_porta

no meu verso

Idiota  

 

Fábio Casemiro

Verão 2021

  

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"Brasil... tem, mas acabou"

 

(Versão Redux)

1. Então o DEM traiu o Maia que agora vira ícone da esperança do impeachment...rs. O centrão traiu seu acordo original em nome de cargos e verbas do governo federal...Olha!!! Que surpresa!!!! Quando a gente poderia imaginar, não??! Justo o centrão!!!!

Mas afinal, o que estamos assistindo?

O que estamos assistindo é a ascensão dos militares com Bolsonaro (junto aos milicianos) apoiados por setores importantes da sociedade civil como banqueiros, partidos políticos (Congresso nacional), Agronegócio e "Investidores" (jogatina na bolsa de valores, ou seja: jogo do bicho de rico).

......

2. Em 64 havia um impasse com o impedimento do retorno de João Goulart com a renúncia de Jânio Quadros. Os militares se apropriam de um vazio de poder e tomam à dianteira num processo que acaba por liderar toda a massa ressentida, assolada por um fantasma anti-comunista, ávida por um entreguismo pros U.S.A. (Guerra-Fria pegava pesado...), classe alta, investidores, setores médio/urbanos apostando no autoritarismo brasileiro. A ditadura militar segue de 1964 a 1984.

Ali os milicos fizeram o que fazem de melhor: batem, cerceiam, torturam e censuram quem discorda. Investem em planos faraônicos (Itaipú, Transamazônica, Projeto Jari, etc) todos superfaturados, com muita gente e empresa pendurada e mamando... Injetam grana na classe média a custo de dívidas a prazo perdido (os brasileiros do futuro que lutem: a dívida externa e a hiperinflação dos anos 80/90 veio disso daí).

......

3. Vargas assume o poder no Brasil em 1930. O fez com apoio dos militares (ele mesmo, Vargas, havia chegado a Sargento do exército no Sul). O que os militares com Vargas realizaram em 30 foi tomarem para si a dianteira diante da decadência de um regime oligárquico (aristocracia do café)  popularmente conhecido como "República do Café com Leite". Vargas começa em 30 e, resumidamente, de 37 a 1945 governa com um golpe dentro do golpe, o chamado Estado Novo. O apoio a Vargas durou enquanto durou um certo apego nacional das nossas elites diante das incertezas de um mundo em destruição (estamos no contexto da segunda guerra mundial).

Mas ditadura é ditadura: a tortura foi aperfeiçoada na Era Vargas. A Filinto Muller é atribuída a invenção da tortura por “eletro-choque” e foi ele quem capturou Olga Benário (judia comunista esposa de Luis Carlos Prestes)... Detalhe: Vargas enviou a moça grávida como “presente” para Adolf Hiltler.

É nessa época que setores das forças armadas se (con)fundem com agrupamentos armados formando escuderias de justiçamento e chacina (“limpeza” racial/social à brasileira) que dão origem aos “esquadrões da morte” que se confundem com o os departamentos oficiais de repressão como o Dops (criado em 1924 e muito bem empregado com os govcernos de Vargas). Essas coisas vão dar origem na ditadura de 64/84 aos polos DOI-CODI, famosos pela violência e tortura no Brasil.

Aaahhh...  Já ia me esquecendo: essas instituições promiscuamente articuladas dão origem àquilo que hoje denominamos “milícia”... Que brasilzinho interessante esse, não?

Voltando...

Com a mudança de paradigma (Guerra-Fria) Vargas se torna "anacrônico" para os desejos de "modernização" de nossas elites: moderno era o alinhamento imediato à grande potência que emergia nas Américas: os U.S.A.

Vargas foi muito útil para nossas elites. 

Depois deixou de ser. 

....

4. Esgotado politicamente, o império assiste a ascensão do exército brasileiro com a Guerra do Paraguai, em meados do século XIX. Guerra que laureou o Sr. Luís Alves de Lima e Silva com o título de “Duque de Caxias”. Exímio genocida, caxias é reponnsável por inúmeros massacres no Brasil que ocorreram com as degolas das chamadas “Revoltas Regenciais”. Obviamente nada se compara à Guerra do Paraguai (1864-1870) em que o exército brasileiro foi responsável pelo genocídio de grande parte da população masculina do Paraguai, tendo sido famoso, inclusive, pelo massacre de crianças em campos de batalha (por causa do infanticídio de crianças paraguaias, o dia da criança naquele país é 16 de agosto).

Esse exército, imbuído de ideais de progresso (positivismo) vai se "casar", via "amor à primeira vista", com os republicanos (PRP) para proclamar a República em 1889 que se inicia com um período militar , a chamada República da Espada, que tem como seus epígonos o Marechal Deodoro da Fonseca e Marechal Floriano Peixoto.

Floriano ficou conhecido como “Marechal de Ferro” devido à sua truculência: debelou revoltas como “Revolução Federalista” e “Revolta da Armada”. Na “Federalista” ele foi tão bonzinho que a cidade de Desterro passou a carregar seu próprio nome: “Florianópolis” (a cidade de Floriano... imagina a pessoa). 

Os militares ali se compreendiam como o grande polo disciplinar do país: centro de irradiação do progresso e da cientificidade.

Sempre se considerariam como tal e vivem à espreita do dia em que serão chamados para "servir a nação". Para eles, "servir a nação" é arrebentar parte da população: aquela que desobedece, aquela que não presta, aquela que não se enquadra em seus ideais (coloca aí todo o pacote racista/ machista/ ideológico que você está pensando porque encaixa muito bem).

....

            Algumas lições a gente tira disso:

1. A história da República brasileira funciona como uma valsa: "vai milico e volta milico" (uma “valsa fúnebre”)

2. Milico quando se mete no poder, faz uma lambança que só, mata, tortura, rouba, corrompe, tira a liberdade e não resolve nada.

3. Sempre chegaram ao poder e vão continuar tentando. Agora, por exemplo, estão fazendo isso.

4. Setores abastados/ privilegiados da sociedade brasileira (multi-milionários) SEMPRE apoiaram a truculência militar em nome de uma suposta "ordem". (Sim, o Brasil sempre teve seus "véio da Havan").

5. Se você "votou" no Bolsonaro por um certo "espírito revolucionário", achando que iria "mudar o país"... VOCÊ ACHOU ERRADO, OTÁRIO!!! Sim!!! Vc foi um joguete ideológico na mão de setores brasileiros que sempre viram no monopólio de nossa economia, de nossa política e de nossa mídia, o lugar ideal de onde garantir que seus privilégios político/econômicos e sociais se mantenham pela eternidade...

Yes!!!! The Mamata never ends! (And strikes again!!!)

6. O Brasil só será livre quando os crimes militares forem devidamente julgados (...pode começar com Bolsonaro e Pazuello, mas não esquece do Heleno, do Santos Cruz, do Braga Neto, do Etchegoyen) ... Daí que só seremos país com República e democracia quando a tutela do autoritarismo militar e civil/oligarca (e agora também miliciano) não for mais uma limitação à ascensão de um povo solidário e realmente senhor de seu próprio destino.

....

Observações:

a. Desculpem demais amigos historiadores pela simplificação. Simplificar é preciso, viver tá difícil.

b. Porque tô escrevendo isso?

Prá deixar registrado. Prá quiçá a gente nunca se esqueça. Prá deixar marcado o lugar da história que eu estava quando essa birosca for pelos ares... oooppsss... Já foi de novo...

c. E aí tá incluso um monte de coisa que não explorei, como por exemplo, o colonialismo predatório (anti-ambiental, claro) que nossas elites fazem com a gente (e com essa colonização todo o massacre étnico/cultural que executa... e que, justiça seja feita, não é exclusivo dos militares).

d. Prá que as pessoas que leiam isso entendam que o buraco é mais embaixo, que a gente tá sempre preso à nossa síndrome de Republiqueta de Bananas e que é preciso sermos democráticos de verdade quanto antes....

e. Eu tenho esperança? Não. Tenho teimosia.

f. Para que depois de tudo isso, você entenda a frase de meu querido amigo Ricardo Carpin, que eu propago quase todos os dias pelos quatro cantos escuros desse “país”:

"Brasil...tem, mas acabou".     

 

 Abraços, 

Prof. Fábio Martinelli Casemiro

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A Pá-lavra A-briga

(Ao PoetArtista Adherrio Lais)


a função do poeta é brigar com a palavra

até que a palavra vença

e a palavra vença é palavra como é palavra

a palavra avenca. se dentro da palavra haviam pá-lavras,

a pás lavram os poema e o poeta, 

que pena,

volta a plantar suas avenças na inútil certeza

de que só a palavra aceita

                                        ...a seita

                                             ...a seiva 

                                                      ...a tenta                                                                        

                                                                       (num jogo de iguais, quem vence é 

a vendeta)

                                             ...e se pá,
                                                  lenta

                                                                                                 

                                                                                                    Problema:
                                                                                                        Quem 
                                                                                               cavocar fora da asa,
                                                                                                Have-rá Ave Pá-Lavra,
                                                                                             vai chegar ao Pó-Ema?

                                                                                             

                                      Yo no creo en poesías, 

                                      pero que las hay, las hay.


Fábio Casemiro


(Recriado a partir de poema de meu outro blog: www.sonsdemodorra.blogspot.com)

domingo, 15 de novembro de 2020

Carta Crônica aos Mandatários da Nação

 

*


Piracicaba, 15 de novembro de 2020.

            

 

 Aos títeres mandatários da nação, empossados já em 1530 por ordem de sua majestade El Rei de Portugal e herdeiros-em-título condecorados pelo governante mor dos Estados Unidos da América (quem quer que ele seja, desta vez).

 

            Eu, Fábio Martinelli Casemiro, nascido a 01 de abril de 1976, venho por esta me declarar culpado pelo sonho. Não respeitei a mediocridade necessária à vida adulta, sempre me apresentando de modo criativo, irreverente, crítico e artístico.

            Nunca me acomodei à pressupostos: sou poeta, professor, democrata e – que horror! – acredito na ciência. Sempre lutei pela liberdade de reflexão de meus alunos, mesmo quando a ideologia dominante, o recalque, o ressentimento, o comodismo e a falsa noção de liberdade do indivíduo se contrapôs ferozmente diante do processo pedagógico (que significa necessariamente a comunicação libertadora, a formação crítica e a consciência pela solidariedade humana).

            Cônscio de meus pecados, me declaro culpado. Eu, homem “branco”, heterossexual e filho da classe média, joguei fora minha “aspiração à nobreza” em nome da crença no republicanismo, na cidadania e na certeza de que a política é serviçal do povo (e quando não é, não é política).

            Abandonei as aspirações do enriquecimento cabotino e incauto que herdei da classe média, abandonei meus sonhos de honda-civics na garagem, casa de tijolinho em condomínio de luxo, espaços gourmets e cães labradores de comercial de margarina (como luxo confesso, mantenho sob meus cuidados um delicioso cachorro vira-lata meio caramelo que atende pela alcunha de Butêjo, homenagem minha às aves de arribação e aos deliciosos porres de vinho com minha esposa).

            Minha esposa, igualmente culpada: preta, lúcida, feliz e livre. De esquerda, artista, senhora de um doce sorriso fácil mesmo nos tempos difíceis. Pratica como exercício búdico espiritual o amor devoto por nós dois, crendo vertiginosamente em meus ofícios professorais e líricos, mesmo quando o mundo diz o contrário. Corajosa diante do machismo e dos machistas, sabe cuidar de seu homem sem deixá-lo folgado, é poeta das formas e cores e é suficientemente forte para mudar o mundo que a cerca: capaz de enfrentar o isolamento social com sorriso, bater uma laje, produzir uma escultura, cuidar das unhas e assistir a série preferida, tudo antes do por do sol... ela, toda bela.

            Ousamos a felicidade, mesmo diante dos prognósticos mais desfavoráveis e das probabilidades mas agourentas. Definitivamente não somos pessoas de bem. Certamente representamos o mais perigoso perigo à toda a civilização brasileira vigente (prá se ter uma ideia, adoramos passeios de carro, mas acreditamos no transporte público, gratuito e de qualidade!).

            Exigimos uma condenação a altura de nossos crimes. Queremos ser degredados para um país com:

Renda básica cidadã (aquela do pai do Supla); Educação pública de qualidade desde a creche até a pós-graduação; SUS forte e estruturado com médico de família e medicina preventiva para todas e todos; Descriminalização do aborto e regularização da prática em sistema de saúde pública com acompanhamento psicológico para a mulher e sua família; Moradia para todos; Transporte público eficiente e gratuito; Educação sexual nas escolas; Educação integral para todas as idades com educação nutricional e ambiental; Internet 5G chinesa gratuita; Vacina chinesa gratuita e obrigatória; Criolo (o do rap) para ministério da cultura; Lula como ministro das relações exteriores; Ciro Gomes para ministro da economia; Érica Malunguinho (deputada estadual de São Paulo) para ministério da igualdade racial e de gênero; Marina Silva para ministério do Meio ambiente; João Pedro Stedile (o do MST) para ministro da agricultura; Marcelo Freixo para Ministério dos Direitos humanos e Guilherme Boulos para presidente (com Flávio Dino vice)!

            É o mínimo que podemos esperar de uma colônia penal séria, para todos aqueles que, como nós, possuem um posicionamento visivelmente comunista, leninista, trotskista, estalinista, maoísta, gayzista, socialista, marxista, abortista, ateísta e de extrema-esquerda-radical-satanista. Sugiro que tal colônia para degredados políticos seja implementada na região nordeste do Brasil, onde tem aquele delicioso guaraná de viado.

 

            Me declaro culpado e ofereço a mim e a minha família (incluindo o cachorro!) para prisão perpétua.

Sem mais, me despeço.


Poeta Fábio Casemiro


*Imagem de: https://www.marinha.mil.br/sites/www.marinha.mil.br.dhn/files/hist_tbrasilis.jpg


               

 

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A arte é aquele botão de rosa que se atira à tampa do Caixão

                                            (Para Aliane, Ricardo e Rodrigo)
É

Faz tempo que é o fim
É o fim que nunca acaba
É o fim que continua sem parar

Ele se prolonga em seu término 
até que chegue ao sempre do agora.

Ele veio do sempre do ontem
porque o brasileiro armado
de seu deus estúpido
o fez assim.


O poema é só um I-Ching:
Ruim pra você
Pior pra mim

Vida que segue:
E é só o fim



Fábio Casemiro
(poema para whatsapp e orquestra fúnebre)

domingo, 23 de agosto de 2020

Poemáquina para Poemacinético

(para Alexandre Guranieri)

Máquina, engrenagem, simplesmente poema.
Máquina para o mundo desvendando a máquina do mundo,
Poesia.
 

Quiçá, maquinascendo
na sua essência mecânica seja
uma máquina de nos fazer humanos
mais manos, minas e menos húmus.
 

Omnes Similes Sumus

E máquina mais que exata
necessária
que nos liberta.
Máquina aberta
a tudo que mais insano.

Máquina, se não me engano,
é a máquina que canto
Máquina de canto en cantos

 

Máquina de movimento
me mova ao vento e num alento
me faça,
catavento que
cada vez mais tento
mais ser menos
Um e Juntos num só mecanismo

ser mais
Nós

 

Fábio Casemiro



sábado, 22 de agosto de 2020

Oficina de Poesia - Arte Poética: Demência ou Sobrevivência?


OFICINA ON-LINE 

DE POESIA 

Edgar Morin, antropólogo francês compreende o ser humano para além do homo faber, Morin propõe o homo demens. Pervertendo (pelo verso, claro) o antropógolo, podemos concluir que delirar é preciso, viver não é preciso. A literatura e as artes em geral estão repletas de delirantes... Havia quem dissesse que a poesia de Fernando Pessoa era esquizofrênica, já disseram que Augusto dos Anjos era demente e raquítico. Lima Barreto escreveu ficção no sanatório. Já Álvares de Azevedo era um bom menino, mas seus versos eram perversos. Seria a literatura a cura para os doentes? Ou será que a literatura é a doença ela mesma: será o poema um lá maior sempre batendo forte, se atentando contra a sanidade do pobre Robert Schumann? Ou pior: teria o pianista composto tantos lindos lieder sem aquele lá (sempre lá)? Quiçá...

Essa oficina pretende estimular a produção de textos poéticos (em verso ou em prosa), mediante debates e leituras tanto de textos poéticos como de textos críticos. Ao final, cada participante irá entregar um texto poético de própria autoria.

Inscrições abertas, pelo link:

https://bvl.org.br/evento/oficina-arte-poetica-demencia-ou-sobrevivencia/2020-09-01/


Bora participar, minha gente!
Vagas Limitadas!




sexta-feira, 17 de julho de 2020

Versos Gástricos


Para o Sérgio Alcides

Pavês! Ninguém degustou o intragável
confeito de tua última panela
Somente o açafrão na mortadela
Foi tua receita incontornável



Acostuma-te às louças que tu espera
O Chefe que não cozinha as moelas
Sente inevitável necessidade
de azeitar as passas e as alichelas

Toma um fósforo, acende o forno de barro
O queijo é amigo da nêspera no jarro
E a mão que unta é a que colheu cereja

Se alguém vai no fogão e o fogo apaga
Refoga o alho todo na alcaparra
Relaxa e toma um copo de cerveja.

Aogosto dos Anchos
   &   Fábio Casemiro

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O troco da Quarentena




    Foi no Papillon. Não, foi numa série da Netflix. Na verdade não me lembro, mas hoje entendo exatamente o que a cena dizia: antes de entrar prá solitária (cela individual onde o preso é colocado por indisciplina – uma tortura, é fato) o guarda que acompanhava o sujeito dava prá ele uma moeda.

    Hoje eu sei prá que serve aquela moeda.

   Aquela moeda serve para o prisioneiro contar ao atirá-la no chão e pegar imediatamente. Ao fazer isso, ele se obriga a pensar na figura dos números, estabelecer foco e concentração, agachar várias e várias vezes, lubrificando articulações, pondo o sangue prá funcionar, o cérebro prá pensar e o corpo prá mexer. É um modo de passar o tempo, de ter um alvo que não a ensurdecedora batalha de vozes que habitam os universos sempre tão inexplorados de nossa solidão.

    Quarentena, isolamento, pandemia. Combinação perfeita para o desencontro de si.

    A situação é perfeita para o caos: o isolamento social pela quarentena nos leva à distância, que faz crescer a anomia, principalmente se você começa a se dar conta do mundo que derrete na sua frente. Eu vou conseguir fazer home office? Meu trabalho vai continuar existindo depois que isso passar? Ainda que passe, quantas sequelas ficam disso tudo: a precarização do trabalho já marcava presença, mas agora ela parece se aprofundar.

    Ansiedade. Incerteza e mais ansiedade. Essa moda veio prá ficar.

    Não sei o que responder diante de tudo isso. As profissões são muito diferentes, as contingências são muito diferentes, as capacidades de adaptação de cada empresa e de cada profissional igualmente o são.
    O que sei é que a resposta está naquela cena da moeda do filme: é preciso ter ritos, metas muito precisas, pequenas e facilmente realizáveis, é preciso que nosso cotidiano esteja repleto de atividades padronizadas como o cronograma diário dos primeiros monges beneditinos cujo lema era “ora et labora” (reza e trabalha). Com o advento do home office, a gente virou um bando de monge e essa vida monástica pressupõe disciplina. Tem até aquela música do Legião Urbana “disciplina é liberdade”... pois é, agora tudo faz sentido. 

    Então viramos máquinas? Engolimos o relógio?

   Com certeza. Mas fique tranquilo, isso já aconteceu há muitos séculos atrás. Isso começou no final do século dezoito com a revolução industrial: não sou eu quem mostra isso, mas historiadores como Michel Foucault e o professor Edgar de Decca. Nos trabalhos de ambos, podemos compreender como nossa sociedade se passou do agrário ao urbano/fabril impondo disciplina corpórea, educação dos gestos e controle.
    
     Mas o controle não era a saída?

    Sim. O controle de nosso tempo é a saída para o controle que a realidade nos impõe. Controle ativo como resistência ao tempo do trabalho nos imposto que, em home office nunca se esgota e quer nos esmagar invadindo as horas de lazer e descanso. Não acho gostoso nem utópico, mas a única maneira de individualmente suportarmos o caos que nos impera é sobrepondo nossa autodisciplina sobre o controle que as empresas nos imprimem. Para os autônomos e, principalmente, aos que se comunicam e vendem pelas redes sociais (facebook instagram e youtube, por exemplo) o trabalho é interminável e lá vai você ser toda vez cooptado pelo canto da sereia, atropelando refeições, encontros afetivos, horas de sono, ou ainda as terríveis zappiadas da madrugada, mesmo deitados na cama.
    Não dá. No caso das redes é mais grave ainda: ou a gente controla as redes ou as redes controlam a gente. Mas sobre as redes eu falo outro dia, porque é preciso criarmos, como sociedade, um conjunto de protocolos para melhor nos relacionarmos com essa ferramenta essencial, mas, infelizmente, fonte também de inesgotável ansiedade, promoção de notícias falsas (fake news) e discursos de ódio.
  Para sobrevivermos ao mundo quarentena, ritos são fundamentais. Protocolos de trabalho e de descanso, atividades físicas simples (porque preservam corpo e mente) são indispensáveis. Disciplina é liberdade, mesmo.
     Do contrário, as moedas, por tradição, se transformam nas oferendas que os gregos davam ao barqueiro Caronte, o famoso barqueiro da morte.
*
     Se você puder, fique em casa. Se não puder, tome todas as medidas de distanciamento e higiene possíveis no seu cotidiano. Se você precisa sair todos os dias, creio que seu trabalho deve ser de fundamental importância para aqueles que podem estar plenamente isolados.
    Se você for um desses heróis: entregadores, enfermeiros, médicos, agricultores, trabalhadores de supermercados e redes de abastecimento, meu muito obrigado.

     Tamo junto!
Prof. Fábio Casemiro 




quarta-feira, 8 de julho de 2020

Resenha crítica: Uma Rua de Roma de Patrick Modiano.


Uma Rua de Roma de Patrick Modiano (Nobel de literatura 2014) é obra de clima marcadamente noir. A narrativa percorre as ruas de Paris, durante meados do século XX. O que temos aqui é uma espécie de romance policial/existencial cujo protagonista e narrador Guy Roland é um detetive particular vitimado pela amnésia e que sai em busca da própria identidade: Roland recebeu esse nome de seu chefe, o detetive Hutte. Quando ele se aposenta, o protagonista pode tomar de suas habilidades de detetive para ir em busca de si mesmo.
Até aqui temos um grande plot para um romance policial. Um detetive buscando a si mesmo não é novidade nas tramas literárias e cinematográficas. O que Modiano nos traz de novidade para além de sua forma lacunar de tratar essa busca é a expressão sensorial, até sinestésica – em alguns momentos – com que cria um filtro que percorre toda a obra, uma espécie de sépia esverdeada na qual se mesclam os aromas de tabaco e dos perfumes apimentados. A textura da narrativa é bastante visual e muito carregada de tons obscuros porém intensos, o que sugere uma espécie de fauvisme-noir. O esgarçamento da memória é reforçado pelo jogo antitético entre ambientes públicos e privados: o sussuro, a intimidade das fotografias compartilhadas contrasta com a amplitude das avenidas, das praças, das ruas cheias de comércios, bares e restaurantes.
A incapacidade de se reconhecer nessa convulsão de pistas que o protagonista encontra, ultrapassa o simples desafio de não se reconhecer em quaisquer personagens que venham a emergir; tampouco se trata de não identificar seu próprio rosto num mundo de fotografias tão apagadas e distantes: essa vertigem se deve à dificuldade de atribuir sentido à vida que se volatiliza diante de um mundo tão violento e que impõe, mesmo às pessoas comuns, o anonimato, o segredo, a reclusão, uma vez que o século XX está constelado por um submundo de grandes correntes migratórias. A identidade escapa porque o europeu do século XX teve que se construir como um constante fugitivo diante das sociedades autoritárias, já que sua identidade étnica, religiosa, de gênero, de afetividade o denuncia e a civilização contemporânea – que se anuncia tão arrogantemente livre – não tem espaço para as liberdades que se coloquem tão distantes dos padrões sociais.
Se a escolha das palavras é simples, a comunicação se mostra bastante complexa e sofisticada porque Modiano diz sem dizer, mostra ocultando e (sem spoilers!) subtrai o contexto para que ele brilhe intensamente nas sombras que cultiva por todo o romance. A vertigem que nos causa vem por esse jogo de claro/escuro e pela construção da narrativa permeada por ambientações sinestésicas que nos deixam confusos: essa confusão é a grande marca constitutiva do sujeito contemporâneo, já que sua desterritorialidade e sua não identificação com os padrões sociais de normalidade é justamente a grande marca de nossa subjetividade moderna e que, aliás, do século XIX até hoje, não para de derreter.
Uma Rua de Roma foi publicado originalmente sob o título Rue des Boutiques Obscures, no ano de 1978. Poderia, o leitor desavisado, acreditar que se trata de um romance muito antigo. Contudo, o que poderia ser mais atual do que a não territorialidade do ser, justamente neste jovem século XXI em que fenômenos como a migração e a circulação de pessoas vêm sendo tão mal compreendidos e geridos?
Vitória de Modiano. Leiam Uma Rua de Roma.

Fábio Casemiro

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Muito além dos corvos




Eu que não dou conta desse mundo polifônico, 
cheio de fantasmas cantantes
Esquálidos esquifes dizendo eu sou.

 

Já eu, não. Não sou nem isso, nem aquilo.
Eu sou o outro que olha o mundo pela janela de 
dentro,

Da prisão eu sinto como porta cada barra da grade
 da vida.

Nessa prisão de almas em vídeo clipe, inferno de 
Dante, a saída é entrando cada vez mais. Quem 
poderá diante do deus faminto, erguer suas hastas 
em hostes, entre hashtags ou óstias?

Esse é o fim, meu doce amigo. O fim já estava lá dentro, 
a fruta dentro da casca gritava zumbindo como 
mosca: podres todas as canções.

Sem você ao meu lado, o chão é mole como cera. 
Como
São mais moles agora as placas da história,
Se o poeta soubesse,

Ele cantava todas as canções de caçada,
Regadas a vinho falerno,
Nos aquecia com mais histórias,
Urubu cabeça de martelo

E não nos deixava no inverno desses nossos dias
Eu não teria jamais o deixado ir, ainda mais
No dia santo do lagarto rei.

É noite, minha alma se aclara,
O véu da madrugada se volta contra os 
achacadores de revolta e volta
A nos assombrar com o vívido véu da morte.

Com sorte, minha consorte nos trará sonhos para o
 convescote

A morte
A morte quer o mundo e eu,
Simplesmente,

Só sei desobedecer com a arte,
Os doces espantalhos no meu quintal.

~Para Roberto Piva
10 anos de sua morte ~


Fábio Casemiro
03 de julho de 2020

Recomendo,
Você ler ouvindo...