quarta-feira, 8 de julho de 2020

Resenha crítica: Uma Rua de Roma de Patrick Modiano.


Uma Rua de Roma de Patrick Modiano (Nobel de literatura 2014) é obra de clima marcadamente noir. A narrativa percorre as ruas de Paris, durante meados do século XX. O que temos aqui é uma espécie de romance policial/existencial cujo protagonista e narrador Guy Roland é um detetive particular vitimado pela amnésia e que sai em busca da própria identidade: Roland recebeu esse nome de seu chefe, o detetive Hutte. Quando ele se aposenta, o protagonista pode tomar de suas habilidades de detetive para ir em busca de si mesmo.
Até aqui temos um grande plot para um romance policial. Um detetive buscando a si mesmo não é novidade nas tramas literárias e cinematográficas. O que Modiano nos traz de novidade para além de sua forma lacunar de tratar essa busca é a expressão sensorial, até sinestésica – em alguns momentos – com que cria um filtro que percorre toda a obra, uma espécie de sépia esverdeada na qual se mesclam os aromas de tabaco e dos perfumes apimentados. A textura da narrativa é bastante visual e muito carregada de tons obscuros porém intensos, o que sugere uma espécie de fauvisme-noir. O esgarçamento da memória é reforçado pelo jogo antitético entre ambientes públicos e privados: o sussuro, a intimidade das fotografias compartilhadas contrasta com a amplitude das avenidas, das praças, das ruas cheias de comércios, bares e restaurantes.
A incapacidade de se reconhecer nessa convulsão de pistas que o protagonista encontra, ultrapassa o simples desafio de não se reconhecer em quaisquer personagens que venham a emergir; tampouco se trata de não identificar seu próprio rosto num mundo de fotografias tão apagadas e distantes: essa vertigem se deve à dificuldade de atribuir sentido à vida que se volatiliza diante de um mundo tão violento e que impõe, mesmo às pessoas comuns, o anonimato, o segredo, a reclusão, uma vez que o século XX está constelado por um submundo de grandes correntes migratórias. A identidade escapa porque o europeu do século XX teve que se construir como um constante fugitivo diante das sociedades autoritárias, já que sua identidade étnica, religiosa, de gênero, de afetividade o denuncia e a civilização contemporânea – que se anuncia tão arrogantemente livre – não tem espaço para as liberdades que se coloquem tão distantes dos padrões sociais.
Se a escolha das palavras é simples, a comunicação se mostra bastante complexa e sofisticada porque Modiano diz sem dizer, mostra ocultando e (sem spoilers!) subtrai o contexto para que ele brilhe intensamente nas sombras que cultiva por todo o romance. A vertigem que nos causa vem por esse jogo de claro/escuro e pela construção da narrativa permeada por ambientações sinestésicas que nos deixam confusos: essa confusão é a grande marca constitutiva do sujeito contemporâneo, já que sua desterritorialidade e sua não identificação com os padrões sociais de normalidade é justamente a grande marca de nossa subjetividade moderna e que, aliás, do século XIX até hoje, não para de derreter.
Uma Rua de Roma foi publicado originalmente sob o título Rue des Boutiques Obscures, no ano de 1978. Poderia, o leitor desavisado, acreditar que se trata de um romance muito antigo. Contudo, o que poderia ser mais atual do que a não territorialidade do ser, justamente neste jovem século XXI em que fenômenos como a migração e a circulação de pessoas vêm sendo tão mal compreendidos e geridos?
Vitória de Modiano. Leiam Uma Rua de Roma.

Fábio Casemiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário