Uma
Rua de Roma de Patrick Modiano (Nobel de literatura
2014) é obra de clima marcadamente noir.
A narrativa percorre as ruas de Paris, durante meados do século XX. O que temos
aqui é uma espécie de romance policial/existencial cujo protagonista e narrador
Guy Roland é um detetive particular vitimado pela amnésia e que sai em busca da
própria identidade: Roland recebeu esse nome de seu chefe, o detetive Hutte.
Quando ele se aposenta, o protagonista pode tomar de suas habilidades de
detetive para ir em busca de si mesmo.
Até aqui temos um
grande plot para um romance policial.
Um detetive buscando a si mesmo não é novidade nas tramas literárias e
cinematográficas. O que Modiano nos traz de novidade para além de sua forma
lacunar de tratar essa busca é a expressão sensorial, até sinestésica – em
alguns momentos – com que cria um filtro que percorre toda a obra, uma espécie
de sépia esverdeada na qual se mesclam os aromas de tabaco e dos perfumes
apimentados. A textura da narrativa é bastante visual e muito carregada de tons
obscuros porém intensos, o que sugere uma espécie de fauvisme-noir. O
esgarçamento da memória é reforçado pelo jogo antitético entre ambientes públicos
e privados: o sussuro, a intimidade das fotografias compartilhadas contrasta
com a amplitude das avenidas, das praças, das ruas cheias de comércios, bares e
restaurantes.
A incapacidade de se
reconhecer nessa convulsão de pistas que o protagonista encontra, ultrapassa o
simples desafio de não se reconhecer em quaisquer personagens que venham a
emergir; tampouco se trata de não identificar seu próprio rosto num mundo de
fotografias tão apagadas e distantes: essa vertigem se deve à dificuldade de atribuir
sentido à vida que se volatiliza diante de um mundo tão violento e que impõe,
mesmo às pessoas comuns, o anonimato, o segredo, a reclusão, uma vez que o
século XX está constelado por um submundo de grandes correntes migratórias. A
identidade escapa porque o europeu do século XX teve que se construir como um
constante fugitivo diante das sociedades autoritárias, já que sua identidade
étnica, religiosa, de gênero, de afetividade o denuncia e a civilização contemporânea
– que se anuncia tão arrogantemente livre – não tem espaço para as liberdades
que se coloquem tão distantes dos padrões sociais.
Se a escolha das
palavras é simples, a comunicação se mostra bastante complexa e sofisticada
porque Modiano diz sem dizer, mostra ocultando e (sem spoilers!) subtrai o
contexto para que ele brilhe intensamente nas sombras que cultiva por todo o
romance. A vertigem que nos causa vem por esse jogo de claro/escuro e pela
construção da narrativa permeada por ambientações sinestésicas que nos deixam
confusos: essa confusão é a grande marca constitutiva do sujeito contemporâneo,
já que sua desterritorialidade e sua não identificação com os padrões sociais de
normalidade é justamente a grande marca de nossa subjetividade moderna e que,
aliás, do século XIX até hoje, não para de derreter.
Uma
Rua de Roma foi publicado originalmente sob o
título Rue des Boutiques Obscures, no
ano de 1978. Poderia, o leitor desavisado, acreditar que se trata de um romance
muito antigo. Contudo, o que poderia ser mais atual do que a não territorialidade
do ser, justamente neste jovem século XXI em que fenômenos como a migração e a
circulação de pessoas vêm sendo tão mal compreendidos e geridos?
Vitória de Modiano.
Leiam Uma Rua de Roma.
Fábio Casemiro
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