sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A Cosmo-agonia das redes & a Vacina Dialética

 


Não há comunicação efetivamente democrática nas redes sociais, o que há é algo terrivelmente nocivo e destrutivo que podemos chamar de "gerenciamento de rebanho", ou se preferirmos de "manejo de seguidores".

 

Na rede social a informação se empobrece, se torna rasa. Não há nenhum lugar efetivo para o debate porque não há curadoria da informação... Ou ainda pior, há uma curadoria que se disfarça de ausência para gerar um efeito fake de consenso. Nestes termos, a realidade é fabricada como simulacro moldado pelos algoritmos que têm no ódio e na captura de dados pessoais (gostos, gestos, posturas, opiniões, códigos, sentimentos) o ouro que é prospectado todos os dias (e que termina nas mãos dos donos do capital, a saber, os donos das redes - sim, elas são privadas, nunca é demais relembrar).

 

A sociedade disciplinar panóptica proposta por Michel Foucault (em Vigiar e punir) não foi superada, ao contrário, ela foi poderosamente engolida por cada indivíduo que alimenta o sistema com sua "energia corpórea", do modo mesmo como assistimos no filme The Matrix: Sempre conectados à rede que nos provém de inebriante serotonina, nós alimentamos o sistema com nossos dados.

 

As redes sociais são o novo cigarro e o cyberproletariado funciona como um adicto. Mas como as redes se transformaram no ponto fulcral da comunicação contemporânea, elas se tornaram o efetivo “ganha pão” das pessoas: todos nós operamos como cyberproletariados e, por isso, as redes tomaram para si o lugar de epicentro do capital. No capitalismo o controle do capital é um privilégio de classe: no capitalismo das redes, isso não é diferente e, ao contrário, mostra-se ainda mais radical (e mais violento porque aprofunda desigualdades em níveis jamais vistos). Não há “fora das redes” simplesmente porque não há “fora do capital”.

 

Esse é o nó górdio das redes. Ninguém consegue trabalhar contra, a oposição a isso é simplesmente uma ilusão que alimenta os mais crédulos que acabam, em polaridade oposta, executando o mesmo movimento: mobilizam rebanhos que são articulados em torno de vieses de confirmação, gerando engajamento, exposição... Lucro das redes novamente.

 

Essa não é uma nova realidade, mas uma nova irrealidade, uma grande ilusão coletiva (subdividida em bolhas, em ilhas... Mas necessariamente ilusória).

 

A realidade humana (aquela que abandonamos quando nos conectarmos às redes), ela é dialética, constantemente contraditória, complexa, indomável... Mas, nas redes, não há espaço para a dialética: as opiniões são levadas ao extremo até que se criem polaridades irreconciliáveis: nos tornamos incapazes de nos comunicarmos fora das redes. As redes criam em nós formas polarizadas de comunicação e nós funcionamos cotidianamente pela retórica das redes mesmo quando estamos fora delas: passamos a selecionar as pessoas partindo da lógica das bolhas e, com isso, mesmo distantes dos celulares, garantimos que a vida real se comporte segundo os preceitos de nosso adestramento cultivado nessa nova cosmogonia. 

 

... E a cosmogonia das redes é a cosmomaquia do real.

 

Me assusta que mesmo isso sendo de conhecimento geral (tá tudo no documentário O dilema das redes da Netflix, por exemplo), os mais críticos (?) ainda insistam que há algo de positivo nas redes sociais: insisto, não há.

 

Um dia houve, em algum futuro ainda há de haver (todo sistema sempre gera dialeticamente sua própria decadência) alguma saída, mas hoje as redes são simplesmente a mais poderosa máquina de controle social jamais criada na história de toda a humanidade (nem o império romano, nem a igreja medieval... a sociedade do controle atingiu seu ponto mais alto no hoje. Espera-se que quando atingir seu apogeu, comece a construir, dialeticamente, seu próprio declínio).

 

Houve uma época áurea na comunicação mais democrática pela internet e redes sociais: foi a época dos blogs, flogs, sites, vlogs... As pessoas eram efetivamente curadoras de suas informações, ideias, propostas. Em seus espaços comunicativos expressavam suas visões de mundo de modo bastante autônomo (o que nunca impediu a canalhice, o discurso fascistoide, claro, mas a disputa pela atenção não era impulsionada pelo trabalho espúrio das lavouras de ódio algorítmico).

 

Com os microblogs como twitter, Facebook, Instagram et caterva a dominância do algoritmo do ódio se impôs: deixamos de cultivar e compartilhar nossas ideias para sermos cultivados pelo manejo algorítmico de rebanho... A lógica do rebanho só pode nos levar ao mundo gado, não importa quão democrático pareça seu posicionamento: a lógica de circulação informacional das redes sociais funciona pelo arrebanhamento, pelo slogan, pelo grito de guerra: sem abertura para o complexo, para o contraditório, o fundamental charme da idiossincrasia humana se perde e tudo se torna ódio ordenhável pelos oligopólios do controle.

 

O humano é essencialmente contraditório. As redes sociais não permitem o contraditório, o dialético. Elas simplificam, tornam raso, modulam narrativas para o controle social. Pouquíssimos dos “usuários” são imunes a esse controle... Grande parte da população sem acesso é mais pauperizada e, invariavelmente, se torna controlada por uma classe "formadora de opinião" que é justamente formada pela retórica/lógica das redes. É preciso que se entenda: rede social é a forma contemporânea da ideologia dominante (no sentido marxista do termo).

 

Não sei quando, não consigo prever os futuros episódios..., mas quando rede ruir, ruirá pelo contraditório, pelo arrebatador poder da complexidade humana...

 

O princípio contraditório humano é mais poderoso que o controle das redes... eu acho. 




Fábio M. Casemiro

28 de Novembro de 2021

 

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