segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Não olhe para o texto, nem para o meteoro

 



...Sob  o pecado mortal dos spoilers, amém...

 

Este texto é um texto para não ser lido porque não é escrito nas redes do Mark, não se uberiza, não se reduz às polarizações do ódio tão cultivadas: ódio é a gasolina do capitalismo, mas sim... Este é mais um texto sobre aquele filme do qual já nem precisamos dizer o nome. O filme de Adam McKay já é o novo Voldemort deste “novo” ano que se inicia.

Pobre contemporaneidade, entre likes e deslikes, vence o filme que já trazia a própria chave de leitura hoje: não interessa a obra, mas a polarização que gera. A polarização é a gasolina que toca o motor, é também nossa explosão meteórica...amém.

Quem sabe das coisas é Oscar Wilde que já na virada do século passado dizia no prefácio do seu Dorian Gray: “A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver sua cara no espelho. A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho.” ...E, um pouco mais adiante, no mesmo prefácio: “É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflete.”...

Pronto, Wilde matou a charada do século XXI já no final do século XIX: no futuro, todo mundo engoliria o narcisismo do mundo oitocentista e seria incapaz de se deleitar com a capacidade da arte de rir de seus espectadores...rs... Ponto pro Wilde.

Mas a final, o que é um meteoro? Segundo os dicionários (e os astrônomos), meteoro é todo fenômeno que ocorre na atmosfera (arco-íris e chuva, pasmem, são meteoros). Daí que os meteoros são, desde nossos tempos mais antigos, os tataravôs dos óvnis, dos ufos, dos discos voadores... É do céu que o ser humano julga ter vindo, é para o céu que o ser humano julga retornar (nas mais diferentes culturas, desde os cristãos até os indígenas brasileiros).

O filme Não olhe para cima mexe com algo moderno e antigo, científico e mítico: o corpo intergaláctico (asteroide) quando se torna visível (e nos extermina) se torna um meteoro. Ele é nossa última divindade que vem dos céus e nós, incapazes de devorarmos nossos deuses, morremos por ele (oferecendo nossa miséria como última oferenda)...rs.

Tô viajando? Não. Parece que quase ninguém comentou (nessa nauseabunda terra de guerra que são as redes antissociais) que o filme foi programado para vir a público somente no dia 24 de dezembro de 2021. E esse é um elemento paratextual muito importante. O filme foi anunciado semanas antes de sua data de lançamento, preparando assim o terreno para que fosse recebido numa determinada data que, bem sabemos, trouxe uma carga mítica muito poderosa, destaco: 24 de dezembro de 2021 foi a noite de natal, certamente, a mais intensa deste nosso novo século XXI, porque todos nós fomos “convidados” à celebração de nossas vidas, afirmando nossa sobrevivência diante do flagelo da morte. Tanto em luta, como em luto, esse natal ganhou um sabor jamais experimentado pelo mundo contemporâneo desde a pandemia de gripe espanhola e desde as duas Grandes Guerras Mundiais... O filme queria ser visto no Natal de 2021, não é nenhum exagero atentar-se para esse fato.

Daí que o filme mostra dois sacerdotes da ciência contemporânea anunciando a “anti-boa nova”: essa nossa estrela de Belém (do século XXI) será a última estrela de Belém. Nossos dois reis magos são cientistas “ateus” que funcionam também como cavaleiros do apocalipse: depois da peste, a morte.

Esta é a maior e a primeira caricatura que o filme imprime. À luz dessa caricatura mestra, todo o ocidente enquanto epicentro da salvação cristã é questionada, toda racionalidade hegemônica é revelada em sua fragilidade e o planeta explode pela competência sarcástica do mito (a estrela cadente/meteoro) que parece responder à máxima nietzschiana: “Ora, ora... se o homem em sua sabença julga matar o divino, então tome estrela cadente como resposta divina à tua arrogância”... E deus ri à socapa...

Compreendido à luz dessa primeira grande caricatura (e articulando-se à ela toda a arquitetura de caricaturas que opera) a força sarcástica do riso se multiplica e, se nos reconhecemos do lado de cá dessa ópera trágica/bufa, poderemos responder com outra fala do mesmo bigodudo alemão quando reconhece ele o frágil poder consolador da arte:

Não! Vós deveríeis primeiro aprender a arte do consolo deste lado de cá – vós deveríeis aprender a rir, meus jovens amigos, se todavia quereis continuar sendo completamente pessimistas; talvez, em consequência disso, como ridentes mandeis um dia ao diabo toda a “consoladoria” metafísica e a metafísica em primeiro lugar! (NIETZSCHE, O Nascimento da Tragédia, Cia das Letras, 2007, pp. 20-21)

Visto por esta chave, que podemos denominar (como nos mostra Umberto Eco em Interpretação e Superinterpretação) de “vontade do texto” – a saber, ser lido e compreendido à luz de paródia da mítica natalina – o filme nos mostra como nossos dois tronchos reis magos, seguindo a estrela cadente do apocalipse, virão nos presentear com as joias da verdade.. e nós (no filme ali representados) as atiraremos prontamente ao lixo, consagrando ali nossa finitude, nossa miséria e, definitivamente, nos revelando como a paródia mais malsucedida de deus (se somos a imagem e semelhança do divino, esse deus executa exatamente a mesma bofetada do engenheiro argonauta, do também odiado filme Prometheus de Ridley Scott).

Sob este prisma da paródia natalina, a cena final ganha um significado bem divergente do que vem pregando a crítica mais hypada de nossas “doces” re-dissociais: o cristianismo de última hora do cientista, o perdão à poligamia pela esposa, o millennial pós-pseudo-evangélico puxando a reza, o afro-americano à cabeceira, a cientista descolada, os bons filhos brancos e obedientes vão todos morrer numa santa ceia paródica que denuncia a incapacidade da humanidade de operar como organismo coerente e sólido diante de uma adversidade devastadora e comum.

Essa paródia de santa ceia crística, contudo, não é simplesmente um fenômeno eventual. Ela foi historicamente financiada pela grande invenção ocidental, o capitalismo, força construtora de múltiplas ideologias que operam como véu de maia à dominação do gado-humano: o bilionário da BASH megacorporação impediu o desvio do asteroide e teve sua sobrevivência (e dos seus) provisoriamente assegurada pela espaçonave... mas depois serão devorados pela onipresença do deus-selvagem/natureza em um planeta distante qualquer (eis que daí ressurge o paradigma “a vingança do deus & os aliens somos nozes”...rs). Capitalismo é destruição. O objetivo do capitalismo é destruir a tudo para poder destruir-se em paz!

...E por último, vemos nascer o übermensch nietzschiano, mas igualmente paródico: um bonachão imbecil negacionista escroto digno dos herdeiros das melhores/piores republiquetas das Américas...

Dioniso é o deus do drama, da tragédia, mas da comédia, também. Na Grécia antiga as representações de Dioniso eram máscaras descabeladas ridentes, penduradas nas épocas festivas por todos os cantos... além do sorriso próprio do grande deus ridente, seus olhos espelhavam o horror da górgona, a medusa com seus cabelos de serpente capaz de petrificar àqueles que encaravam seu horror.

Se não me engano foi Nietzsche (a partir de Schiller) que disse que a arte tem o poder do escudo de Perseu, porque espelha o horror que nos petrifica e nos permite encará-lo pelo seu reflexo... Penso que ninguém tem que gostar ou não de um filme, nem tem obrigação alguma de ver ou não determinada obra. Às vezes você não é o público dessa obra e “tá tudo bem”...

O que me impressiona é essa gasolina de ódio em torno de uma obra de arte... Teve gente brigando com caricatura (qual o problema? Cêis não assiste filme de super-herói?...rs)... Teve gente brigando com metáfora (Uai?.... Cêis queria arte sem metáfora????...rs)...

A questão do ódio é que quando ele toma a linguagem, a linguagem se torna o meteoro ele mesmo. Às vezes, “um filme é só um filme” (parodiando o tio Freud)... E quando o ódio vira a linguagem, ninguém mais vê a bela metáfora que mora naquele meteoro/caricatura... Olham prá cima, olham prá baixo, mas o texto (a obra, a arte) ...

... isso ninguém quer ver mais, o ódio venceu a beleza.

 

Fábio M. Casemiro

 

 


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