sexta-feira, 17 de julho de 2020

Versos Gástricos


Para o Sérgio Alcides

Pavês! Ninguém degustou o intragável
confeito de tua última panela
Somente o açafrão na mortadela
Foi tua receita incontornável



Acostuma-te às louças que tu espera
O Chefe que não cozinha as moelas
Sente inevitável necessidade
de azeitar as passas e as alichelas

Toma um fósforo, acende o forno de barro
O queijo é amigo da nêspera no jarro
E a mão que unta é a que colheu cereja

Se alguém vai no fogão e o fogo apaga
Refoga o alho todo na alcaparra
Relaxa e toma um copo de cerveja.

Aogosto dos Anchos
   &   Fábio Casemiro

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O troco da Quarentena




    Foi no Papillon. Não, foi numa série da Netflix. Na verdade não me lembro, mas hoje entendo exatamente o que a cena dizia: antes de entrar prá solitária (cela individual onde o preso é colocado por indisciplina – uma tortura, é fato) o guarda que acompanhava o sujeito dava prá ele uma moeda.

    Hoje eu sei prá que serve aquela moeda.

   Aquela moeda serve para o prisioneiro contar ao atirá-la no chão e pegar imediatamente. Ao fazer isso, ele se obriga a pensar na figura dos números, estabelecer foco e concentração, agachar várias e várias vezes, lubrificando articulações, pondo o sangue prá funcionar, o cérebro prá pensar e o corpo prá mexer. É um modo de passar o tempo, de ter um alvo que não a ensurdecedora batalha de vozes que habitam os universos sempre tão inexplorados de nossa solidão.

    Quarentena, isolamento, pandemia. Combinação perfeita para o desencontro de si.

    A situação é perfeita para o caos: o isolamento social pela quarentena nos leva à distância, que faz crescer a anomia, principalmente se você começa a se dar conta do mundo que derrete na sua frente. Eu vou conseguir fazer home office? Meu trabalho vai continuar existindo depois que isso passar? Ainda que passe, quantas sequelas ficam disso tudo: a precarização do trabalho já marcava presença, mas agora ela parece se aprofundar.

    Ansiedade. Incerteza e mais ansiedade. Essa moda veio prá ficar.

    Não sei o que responder diante de tudo isso. As profissões são muito diferentes, as contingências são muito diferentes, as capacidades de adaptação de cada empresa e de cada profissional igualmente o são.
    O que sei é que a resposta está naquela cena da moeda do filme: é preciso ter ritos, metas muito precisas, pequenas e facilmente realizáveis, é preciso que nosso cotidiano esteja repleto de atividades padronizadas como o cronograma diário dos primeiros monges beneditinos cujo lema era “ora et labora” (reza e trabalha). Com o advento do home office, a gente virou um bando de monge e essa vida monástica pressupõe disciplina. Tem até aquela música do Legião Urbana “disciplina é liberdade”... pois é, agora tudo faz sentido. 

    Então viramos máquinas? Engolimos o relógio?

   Com certeza. Mas fique tranquilo, isso já aconteceu há muitos séculos atrás. Isso começou no final do século dezoito com a revolução industrial: não sou eu quem mostra isso, mas historiadores como Michel Foucault e o professor Edgar de Decca. Nos trabalhos de ambos, podemos compreender como nossa sociedade se passou do agrário ao urbano/fabril impondo disciplina corpórea, educação dos gestos e controle.
    
     Mas o controle não era a saída?

    Sim. O controle de nosso tempo é a saída para o controle que a realidade nos impõe. Controle ativo como resistência ao tempo do trabalho nos imposto que, em home office nunca se esgota e quer nos esmagar invadindo as horas de lazer e descanso. Não acho gostoso nem utópico, mas a única maneira de individualmente suportarmos o caos que nos impera é sobrepondo nossa autodisciplina sobre o controle que as empresas nos imprimem. Para os autônomos e, principalmente, aos que se comunicam e vendem pelas redes sociais (facebook instagram e youtube, por exemplo) o trabalho é interminável e lá vai você ser toda vez cooptado pelo canto da sereia, atropelando refeições, encontros afetivos, horas de sono, ou ainda as terríveis zappiadas da madrugada, mesmo deitados na cama.
    Não dá. No caso das redes é mais grave ainda: ou a gente controla as redes ou as redes controlam a gente. Mas sobre as redes eu falo outro dia, porque é preciso criarmos, como sociedade, um conjunto de protocolos para melhor nos relacionarmos com essa ferramenta essencial, mas, infelizmente, fonte também de inesgotável ansiedade, promoção de notícias falsas (fake news) e discursos de ódio.
  Para sobrevivermos ao mundo quarentena, ritos são fundamentais. Protocolos de trabalho e de descanso, atividades físicas simples (porque preservam corpo e mente) são indispensáveis. Disciplina é liberdade, mesmo.
     Do contrário, as moedas, por tradição, se transformam nas oferendas que os gregos davam ao barqueiro Caronte, o famoso barqueiro da morte.
*
     Se você puder, fique em casa. Se não puder, tome todas as medidas de distanciamento e higiene possíveis no seu cotidiano. Se você precisa sair todos os dias, creio que seu trabalho deve ser de fundamental importância para aqueles que podem estar plenamente isolados.
    Se você for um desses heróis: entregadores, enfermeiros, médicos, agricultores, trabalhadores de supermercados e redes de abastecimento, meu muito obrigado.

     Tamo junto!
Prof. Fábio Casemiro 




quarta-feira, 8 de julho de 2020

Resenha crítica: Uma Rua de Roma de Patrick Modiano.


Uma Rua de Roma de Patrick Modiano (Nobel de literatura 2014) é obra de clima marcadamente noir. A narrativa percorre as ruas de Paris, durante meados do século XX. O que temos aqui é uma espécie de romance policial/existencial cujo protagonista e narrador Guy Roland é um detetive particular vitimado pela amnésia e que sai em busca da própria identidade: Roland recebeu esse nome de seu chefe, o detetive Hutte. Quando ele se aposenta, o protagonista pode tomar de suas habilidades de detetive para ir em busca de si mesmo.
Até aqui temos um grande plot para um romance policial. Um detetive buscando a si mesmo não é novidade nas tramas literárias e cinematográficas. O que Modiano nos traz de novidade para além de sua forma lacunar de tratar essa busca é a expressão sensorial, até sinestésica – em alguns momentos – com que cria um filtro que percorre toda a obra, uma espécie de sépia esverdeada na qual se mesclam os aromas de tabaco e dos perfumes apimentados. A textura da narrativa é bastante visual e muito carregada de tons obscuros porém intensos, o que sugere uma espécie de fauvisme-noir. O esgarçamento da memória é reforçado pelo jogo antitético entre ambientes públicos e privados: o sussuro, a intimidade das fotografias compartilhadas contrasta com a amplitude das avenidas, das praças, das ruas cheias de comércios, bares e restaurantes.
A incapacidade de se reconhecer nessa convulsão de pistas que o protagonista encontra, ultrapassa o simples desafio de não se reconhecer em quaisquer personagens que venham a emergir; tampouco se trata de não identificar seu próprio rosto num mundo de fotografias tão apagadas e distantes: essa vertigem se deve à dificuldade de atribuir sentido à vida que se volatiliza diante de um mundo tão violento e que impõe, mesmo às pessoas comuns, o anonimato, o segredo, a reclusão, uma vez que o século XX está constelado por um submundo de grandes correntes migratórias. A identidade escapa porque o europeu do século XX teve que se construir como um constante fugitivo diante das sociedades autoritárias, já que sua identidade étnica, religiosa, de gênero, de afetividade o denuncia e a civilização contemporânea – que se anuncia tão arrogantemente livre – não tem espaço para as liberdades que se coloquem tão distantes dos padrões sociais.
Se a escolha das palavras é simples, a comunicação se mostra bastante complexa e sofisticada porque Modiano diz sem dizer, mostra ocultando e (sem spoilers!) subtrai o contexto para que ele brilhe intensamente nas sombras que cultiva por todo o romance. A vertigem que nos causa vem por esse jogo de claro/escuro e pela construção da narrativa permeada por ambientações sinestésicas que nos deixam confusos: essa confusão é a grande marca constitutiva do sujeito contemporâneo, já que sua desterritorialidade e sua não identificação com os padrões sociais de normalidade é justamente a grande marca de nossa subjetividade moderna e que, aliás, do século XIX até hoje, não para de derreter.
Uma Rua de Roma foi publicado originalmente sob o título Rue des Boutiques Obscures, no ano de 1978. Poderia, o leitor desavisado, acreditar que se trata de um romance muito antigo. Contudo, o que poderia ser mais atual do que a não territorialidade do ser, justamente neste jovem século XXI em que fenômenos como a migração e a circulação de pessoas vêm sendo tão mal compreendidos e geridos?
Vitória de Modiano. Leiam Uma Rua de Roma.

Fábio Casemiro

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Muito além dos corvos




Eu que não dou conta desse mundo polifônico, 
cheio de fantasmas cantantes
Esquálidos esquifes dizendo eu sou.

 

Já eu, não. Não sou nem isso, nem aquilo.
Eu sou o outro que olha o mundo pela janela de 
dentro,

Da prisão eu sinto como porta cada barra da grade
 da vida.

Nessa prisão de almas em vídeo clipe, inferno de 
Dante, a saída é entrando cada vez mais. Quem 
poderá diante do deus faminto, erguer suas hastas 
em hostes, entre hashtags ou óstias?

Esse é o fim, meu doce amigo. O fim já estava lá dentro, 
a fruta dentro da casca gritava zumbindo como 
mosca: podres todas as canções.

Sem você ao meu lado, o chão é mole como cera. 
Como
São mais moles agora as placas da história,
Se o poeta soubesse,

Ele cantava todas as canções de caçada,
Regadas a vinho falerno,
Nos aquecia com mais histórias,
Urubu cabeça de martelo

E não nos deixava no inverno desses nossos dias
Eu não teria jamais o deixado ir, ainda mais
No dia santo do lagarto rei.

É noite, minha alma se aclara,
O véu da madrugada se volta contra os 
achacadores de revolta e volta
A nos assombrar com o vívido véu da morte.

Com sorte, minha consorte nos trará sonhos para o
 convescote

A morte
A morte quer o mundo e eu,
Simplesmente,

Só sei desobedecer com a arte,
Os doces espantalhos no meu quintal.

~Para Roberto Piva
10 anos de sua morte ~


Fábio Casemiro
03 de julho de 2020

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