Foi
no Papillon. Não, foi numa série da Netflix.
Na verdade não me lembro, mas hoje entendo exatamente o que a cena dizia: antes
de entrar prá solitária (cela individual onde o preso é colocado por
indisciplina – uma tortura, é fato) o guarda que acompanhava o sujeito dava prá
ele uma moeda.
Hoje
eu sei prá que serve aquela moeda.
Aquela
moeda serve para o prisioneiro contar ao atirá-la no chão e pegar
imediatamente. Ao fazer isso, ele se obriga a pensar na figura dos números,
estabelecer foco e concentração, agachar várias e várias vezes, lubrificando
articulações, pondo o sangue prá funcionar, o cérebro prá pensar e o corpo prá
mexer. É um modo de passar o tempo, de ter um alvo que não a ensurdecedora
batalha de vozes que habitam os universos sempre tão inexplorados de nossa
solidão.
Quarentena,
isolamento, pandemia. Combinação perfeita para o desencontro de si.
A
situação é perfeita para o caos: o isolamento social pela quarentena nos leva à
distância, que faz crescer a anomia, principalmente se você começa a se dar
conta do mundo que derrete na sua frente. Eu vou conseguir fazer home office? Meu trabalho vai continuar
existindo depois que isso passar? Ainda que passe, quantas sequelas ficam disso
tudo: a precarização do trabalho já marcava presença, mas agora ela parece se aprofundar.
Ansiedade.
Incerteza e mais ansiedade. Essa moda veio prá ficar.
Não
sei o que responder diante de tudo isso. As profissões são muito diferentes, as
contingências são muito diferentes, as capacidades de adaptação de cada empresa
e de cada profissional igualmente o são.
O
que sei é que a resposta está naquela cena da moeda do filme: é preciso ter
ritos, metas muito precisas, pequenas e facilmente realizáveis, é preciso que
nosso cotidiano esteja repleto de atividades padronizadas como o cronograma
diário dos primeiros monges beneditinos cujo lema era “ora et labora” (reza e
trabalha). Com o advento do home office,
a gente virou um bando de monge e essa vida monástica pressupõe disciplina. Tem
até aquela música do Legião Urbana “disciplina é liberdade”... pois é, agora
tudo faz sentido.
Então
viramos máquinas? Engolimos o relógio?
Com
certeza. Mas fique tranquilo, isso já aconteceu há muitos séculos atrás. Isso
começou no final do século dezoito com a revolução industrial: não sou eu quem
mostra isso, mas historiadores como Michel Foucault e o professor Edgar de Decca.
Nos trabalhos de ambos, podemos compreender como nossa sociedade se passou do
agrário ao urbano/fabril impondo disciplina corpórea, educação dos gestos e
controle.
Mas
o controle não era a saída?
Sim.
O controle de nosso tempo é a saída para o controle que a realidade nos impõe.
Controle ativo como resistência ao tempo do trabalho nos imposto que, em home office nunca se esgota e quer nos esmagar
invadindo as horas de lazer e descanso. Não acho gostoso nem utópico, mas a
única maneira de individualmente suportarmos o caos que nos impera é sobrepondo
nossa autodisciplina sobre o controle que as empresas nos imprimem. Para os
autônomos e, principalmente, aos que se comunicam e vendem pelas redes sociais
(facebookinstagram e youtube, por
exemplo) o trabalho é interminável e lá vai você ser toda vez cooptado pelo
canto da sereia, atropelando refeições, encontros afetivos, horas de sono, ou
ainda as terríveis zappiadas da
madrugada, mesmo deitados na cama.
Não
dá. No caso das redes é mais grave ainda: ou a gente controla as redes ou as redes
controlam a gente. Mas sobre as redes eu falo outro dia, porque é preciso
criarmos, como sociedade, um conjunto de protocolos para melhor nos relacionarmos
com essa ferramenta essencial, mas, infelizmente, fonte também de inesgotável
ansiedade, promoção de notícias falsas (fake news) e discursos de ódio.
Para
sobrevivermos ao mundo quarentena, ritos são fundamentais. Protocolos de
trabalho e de descanso, atividades físicas simples (porque preservam corpo e
mente) são indispensáveis. Disciplina é liberdade, mesmo.
Do
contrário, as moedas, por tradição, se transformam nas oferendas que os gregos
davam ao barqueiro Caronte, o famoso barqueiro da morte.
*
Se você puder, fique em casa. Se não puder, tome todas as medidas de distanciamento e higiene possíveis no seu cotidiano. Se você precisa sair todos os dias, creio que seu trabalho deve ser de fundamental importância para aqueles que podem estar plenamente isolados.
Se você for um desses heróis: entregadores, enfermeiros, médicos, agricultores, trabalhadores de supermercados e redes de abastecimento, meu muito obrigado.
Uma
Rua de Roma de Patrick Modiano (Nobel de literatura
2014) é obra de clima marcadamente noir.
A narrativa percorre as ruas de Paris, durante meados do século XX. O que temos
aqui é uma espécie de romance policial/existencial cujo protagonista e narrador
Guy Roland é um detetive particular vitimado pela amnésia e que sai em busca da
própria identidade: Roland recebeu esse nome de seu chefe, o detetive Hutte.
Quando ele se aposenta, o protagonista pode tomar de suas habilidades de
detetive para ir em busca de si mesmo.
Até aqui temos um
grande plot para um romance policial.
Um detetive buscando a si mesmo não é novidade nas tramas literárias e
cinematográficas. O que Modiano nos traz de novidade para além de sua forma
lacunar de tratar essa busca é a expressão sensorial, até sinestésica – em
alguns momentos – com que cria um filtro que percorre toda a obra, uma espécie
de sépia esverdeada na qual se mesclam os aromas de tabaco e dos perfumes
apimentados. A textura da narrativa é bastante visual e muito carregada de tons
obscuros porém intensos, o que sugere uma espécie de fauvisme-noir. O
esgarçamento da memória é reforçado pelo jogo antitético entre ambientes públicos
e privados: o sussuro, a intimidade das fotografias compartilhadas contrasta
com a amplitude das avenidas, das praças, das ruas cheias de comércios, bares e
restaurantes.
A incapacidade de se
reconhecer nessa convulsão de pistas que o protagonista encontra, ultrapassa o
simples desafio de não se reconhecer em quaisquer personagens que venham a
emergir; tampouco se trata de não identificar seu próprio rosto num mundo de
fotografias tão apagadas e distantes: essa vertigem se deve à dificuldade de atribuir
sentido à vida que se volatiliza diante de um mundo tão violento e que impõe,
mesmo às pessoas comuns, o anonimato, o segredo, a reclusão, uma vez que o
século XX está constelado por um submundo de grandes correntes migratórias. A
identidade escapa porque o europeu do século XX teve que se construir como um
constante fugitivo diante das sociedades autoritárias, já que sua identidade
étnica, religiosa, de gênero, de afetividade o denuncia e a civilização contemporânea
– que se anuncia tão arrogantemente livre – não tem espaço para as liberdades
que se coloquem tão distantes dos padrões sociais.
Se a escolha das
palavras é simples, a comunicação se mostra bastante complexa e sofisticada
porque Modiano diz sem dizer, mostra ocultando e (sem spoilers!) subtrai o
contexto para que ele brilhe intensamente nas sombras que cultiva por todo o
romance. A vertigem que nos causa vem por esse jogo de claro/escuro e pela
construção da narrativa permeada por ambientações sinestésicas que nos deixam
confusos: essa confusão é a grande marca constitutiva do sujeito contemporâneo,
já que sua desterritorialidade e sua não identificação com os padrões sociais de
normalidade é justamente a grande marca de nossa subjetividade moderna e que,
aliás, do século XIX até hoje, não para de derreter.
Uma
Rua de Roma foi publicado originalmente sob o
título Rue des Boutiques Obscures, no
ano de 1978. Poderia, o leitor desavisado, acreditar que se trata de um romance
muito antigo. Contudo, o que poderia ser mais atual do que a não territorialidade
do ser, justamente neste jovem século XXI em que fenômenos como a migração e a
circulação de pessoas vêm sendo tão mal compreendidos e geridos?
Eu que
não dou conta desse mundo polifônico, cheio de fantasmas cantantes
Esquálidos
esquifes dizendo eu sou.
Já eu,
não. Não sou nem isso, nem aquilo.
Eu sou
o outro que olha o mundo pela janela de dentro,
Da
prisão eu sinto como porta cada barra da grade da vida.
Nessa
prisão de almas em vídeo clipe, inferno de Dante, a saída é entrando cada vez
mais. Quem poderá diante do deus faminto, erguer suas hastas em hostes, entre
hashtags ou óstias?
Esse é
o fim, meu doce amigo. O fim já estava lá dentro, a fruta dentro da casca
gritava zumbindo como mosca: podres todas as canções.
Sem
você ao meu lado, o chão é mole como cera. Como
São
mais moles agora as placas da história,
Se o
poeta soubesse,
Ele
cantava todas as canções de caçada,
Regadas
a vinho falerno,
Nos
aquecia com mais histórias,
Urubu
cabeça de martelo
E não
nos deixava no inverno desses nossos dias
Eu não
teria jamais o deixado ir, ainda mais
No dia
santo do lagarto rei.
É
noite, minha alma se aclara,
O véu
da madrugada se volta contra os achacadores de revolta e volta
A nos
assombrar com o vívido véu da morte.
Com
sorte, minha consorte nos trará sonhos para o convescote