Não há comunicação efetivamente democrática nas redes sociais, o que há é algo terrivelmente nocivo e destrutivo que podemos chamar de "gerenciamento de rebanho", ou se preferirmos de "manejo de seguidores".
Na rede social a informação se empobrece, se
torna rasa. Não há nenhum lugar efetivo para o debate porque não há curadoria
da informação... Ou ainda pior, há uma curadoria que se disfarça de ausência
para gerar um efeito fake de
consenso. Nestes termos, a realidade é fabricada como simulacro moldado pelos
algoritmos que têm no ódio e na captura de dados pessoais (gostos, gestos,
posturas, opiniões, códigos, sentimentos) o ouro que é prospectado todos os
dias (e que termina nas mãos dos donos do capital, a saber, os donos das redes
- sim, elas são privadas, nunca é demais relembrar).
A sociedade disciplinar panóptica proposta por
Michel Foucault (em Vigiar e punir) não foi superada, ao contrário, ela foi
poderosamente engolida por cada indivíduo que alimenta o sistema com sua
"energia corpórea", do modo mesmo como assistimos no filme The
Matrix: Sempre conectados à rede que nos provém de inebriante
serotonina, nós alimentamos o sistema com nossos dados.
As redes sociais são o novo cigarro e o cyberproletariado funciona como um
adicto. Mas como as redes se transformaram no ponto fulcral da comunicação
contemporânea, elas se tornaram o efetivo “ganha pão” das pessoas: todos nós operamos
como cyberproletariados e, por isso, as
redes tomaram para si o lugar de epicentro do capital. No capitalismo o
controle do capital é um privilégio de classe: no capitalismo das redes, isso
não é diferente e, ao contrário, mostra-se ainda mais radical (e mais violento
porque aprofunda desigualdades em níveis jamais vistos). Não há “fora das redes”
simplesmente porque não há “fora do capital”.
Esse é o nó
górdio das redes. Ninguém consegue trabalhar contra, a oposição a isso é
simplesmente uma ilusão que alimenta os mais crédulos que acabam, em polaridade
oposta, executando o mesmo movimento: mobilizam rebanhos que são articulados em
torno de vieses de confirmação, gerando engajamento, exposição... Lucro das
redes novamente.
Essa não é uma nova realidade, mas uma nova
irrealidade, uma grande ilusão coletiva (subdividida em bolhas, em ilhas... Mas
necessariamente ilusória).
A realidade humana (aquela que abandonamos quando
nos conectarmos às redes), ela é dialética, constantemente contraditória,
complexa, indomável... Mas, nas redes, não há espaço para a dialética: as
opiniões são levadas ao extremo até que se criem polaridades irreconciliáveis:
nos tornamos incapazes de nos comunicarmos fora das redes. As redes criam em
nós formas polarizadas de comunicação e nós funcionamos cotidianamente pela
retórica das redes mesmo quando estamos fora delas: passamos a selecionar as
pessoas partindo da lógica das bolhas e, com isso, mesmo distantes dos
celulares, garantimos que a vida real se comporte segundo os preceitos de nosso
adestramento cultivado nessa nova cosmogonia.
... E a cosmogonia das redes é a cosmomaquia do
real.
Me assusta que mesmo isso sendo de conhecimento geral
(tá tudo no documentário O dilema das redes da Netflix, por exemplo), os mais críticos
(?) ainda insistam que há algo de positivo nas redes sociais: insisto, não há.
Um dia houve, em algum futuro ainda há de haver
(todo sistema sempre gera dialeticamente sua própria decadência) alguma saída,
mas hoje as redes são simplesmente a mais poderosa máquina de controle social
jamais criada na história de toda a humanidade (nem o império romano, nem a
igreja medieval... a sociedade do controle atingiu seu ponto mais alto no hoje.
Espera-se que quando atingir seu apogeu, comece a construir, dialeticamente,
seu próprio declínio).
Houve uma época áurea na comunicação mais
democrática pela internet e redes sociais: foi a época dos blogs, flogs, sites, vlogs... As pessoas eram efetivamente curadoras de suas
informações, ideias, propostas. Em seus espaços comunicativos expressavam suas visões
de mundo de modo bastante autônomo (o que nunca impediu a canalhice, o discurso
fascistoide, claro, mas a disputa pela atenção não era impulsionada pelo
trabalho espúrio das lavouras de ódio algorítmico).
Com os microblogs como twitter, Facebook, Instagram et caterva a dominância do
algoritmo do ódio se impôs: deixamos de cultivar e compartilhar nossas ideias
para sermos cultivados pelo manejo algorítmico de rebanho... A lógica do
rebanho só pode nos levar ao mundo gado, não importa quão democrático pareça
seu posicionamento: a lógica de circulação informacional das redes sociais
funciona pelo arrebanhamento, pelo slogan, pelo grito de guerra: sem abertura
para o complexo, para o contraditório, o fundamental charme da idiossincrasia
humana se perde e tudo se torna ódio ordenhável pelos oligopólios do controle.
O humano é essencialmente contraditório. As redes
sociais não permitem o contraditório, o dialético. Elas simplificam, tornam
raso, modulam narrativas para o controle social. Pouquíssimos dos “usuários” são
imunes a esse controle... Grande parte da população sem acesso é mais
pauperizada e, invariavelmente, se torna controlada por uma classe
"formadora de opinião" que é justamente formada pela retórica/lógica
das redes. É preciso que se entenda: rede social é a forma contemporânea da ideologia dominante (no sentido marxista do
termo).
Não sei quando, não consigo prever os futuros
episódios..., mas quando rede ruir, ruirá pelo contraditório, pelo arrebatador
poder da complexidade humana...
O princípio contraditório humano é mais poderoso
que o controle das redes... eu acho.
Fábio M. Casemiro
28 de Novembro de 2021