segunda-feira, 30 de maio de 2022

Hear the Syrens

 


Leia ouvindo a música Sirens da banda Pearl Jam.

Tem algo sobre mim que você não sabe: Tenho ódio à literatura, ódio e nojo. 

Estou cansado dessa apelação brega às supostas maravilhas da arte quando tudo é um mero círculo de comadres e "manifestações de apreço ao senhor diretor".

Odeio odiar a literatura. Isso porque me tornei um idiota que odeia o que não existe. Não existe literatura: existe mercado editorial, comércio de livros. Tampouco os estudos da literatura são reais. São uma desculpa, um subterfúgio prá gente covarde que mora num país miserável e que fica masturbando seus “talvezes”.

O que existe é um acúmulo de gente roçando suas chagas uberizadas, formando panelinhas nos zaps, rivalizando-se pela atenção de meia dúzia de batedores de punheta-ausente: um desfile de comadres fingindo-se fingidores profissionais.
 
Tik-tokers do além-cânone, instagrammers da moda-modinha, ativistinhas da mamãe... Vão se fudê!
 
O que existe é mercado da atenção, hype de vendas e uma orquestra de jovens ávidos para emplacar seu hic et nunc (porque todos os velhos, especialmente os doutores, todos devem ser mortos e seus cadáveres devem apodrecer numa biblioteca desativada de escola pública, que fica em alguma modorrenta cidade do interior: qualquer sertãozinho meia bosta serve).

Se houvesse literatura, haveria tempo. Se houvesse literatura haveria desejo e não essa procissão de selfies com livro, booktubers e professores de canal astropop. Se houvesse literatura haveria sangue de verdade, se houvesse literatura haveria gente disposta à conversa, ao dedo de prosa cheia de ouvidos peludos e café fumegante com queijo e doce depois da rede, e uma outra pitada no paiêro antes da página próxima.

O que tem é ciranda. É gente tonta tonteando a roda que a todos tonteia e mais ainda. Se houvesse literatura os mortos encantariam os vivos e haveria um respeito consensual que pairaria como uma música... Se houvesse literatura nos tornaríamos mais humanos, porque literatura é sobre humanizar-se (e não essa ostentação dos circuitos de consagração).

E se houvesse literatura, a gente não teria que ficar explicando, porque quando é, é óbvio que é (porque quando não é, é só capitalismo com páginas).

Quando não é literatura é mercado (e é também o mercado da crítica desse mercado que, por isso, não é crítica: o maravilindo dilúvio de vários nadas).
 
Se houvesse literatura ela poderia nos salvar de nós mesmos. Se houvesse literatura ela seria como num grande rito ancestral futuro, um encontro. Se houvesse literatura ela seria a única capaz de cantar a beleza. A literatura que existiria nos roubaria esse sono prá sempre do sono da morte...

E se houvesse, mesmo, literatura... ela poderia, ainda assim, nos salvar de nós mesmos. Se houvesse literatura... ela seria como num grande rito ancestral futuro, um grande encontro... Se houvesse literatura... ela seria a única capaz de cantar a beleza. A literatura que existiria...
                                                           nos roubaria
                                                    prá sempre
                                                              desse sono prá sempre
                                                       o sono da
                                                                         morte.
     
                                                          Mas Quem, 
                                                 em meio às ruínas, 
                                                ousará cantar a primavera?
 
 
                                                  Fábio Martinelli Casemiro